Ócio Fecundo


Hábitos de desconsumo

Para os caçadores de tendências

Impressora é uma coisa que não compro. Nenhuma presta, o cartucho é caro, e em qualquer esquina existe uma lan house para imprimir trabalhos.
Relógio eu uso o do celular. Nem para dar aula é imprescindível: não é preciso olhar a hora para ver que a aula está acabando, basta observar a movimentação dos alunos em suas cadeiras, guardando seu material.
Despertador eu uso o do celular, que também ocupo, enventualmente, para fazer e receber ligações.
O carro, enquanto andar, não será levado para o mecânico, nem trocado por outro. Automóvel é a maior aberração da nossa época.
Refrigerante, estou diminuindo. É caloria vazia. O dietético já não entra aqui: minha cunhada explicou que é ainda mais prejudicial à saúde.
Pen drive é bom, já que disquetes viraram lixo informático. Mas vou esperar pra comprar quando passarem a produzir acoplada ao celular.
Máquina digital, idem. Além do mais, os amigos que tem uma encarregam-se de registrar meus instantes.
Remédio pra TPM larguei. Agora tomo leite de soja e sou feliz, não tenho mais vontade de matar ninguém.
Bom, para ninguém dizer que estou ficando pobre, aviso que comprei uns livros budistas.



Categoria: Ensaios Prosaicos
Escrito por Aida às 19h27
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Turbulência
(ficção )

Não lembro quem chegou em quem, quando percebi, ela falava em italiano comigo. Dei risadas e pedi um vinho branco gelado para sair daquele constrangimento, porque não entendia patavina do idioma. Quando começaram as queixas em relação aos relacionamentos passados, pensei que perderia o encanto. Mas ela era muito atraente, levou-me para sua casa e a noite foi ótima. Liguei novamente dali a alguns dias. Estava ansioso, não sabia o que fazer com ela, acabamos indo a um restaurante. Eu queria olhá-la nos olhos e seduzi-la novamente, porque ainda não estava certo de que a primeira noite havia sido algo mais do que efeito do vinho. Apesar da minha curiosidade científica, que ordenava não beber para fazer um experimento de controle, esvaziamos mais duas garrafas de um vinho chileno muito bom do qual não lembro o nome. A mulher era interessante, tinha tiradas inteligentes e sabia soltar uma brincadeira quando eu começava a me tornar pernóstico. Em determinado momento, pensei que pouco importava se era efeito do álcool, a cena toda estava muito agradável: uma perfeição, uma amiga que topa ir comigo pra cama, gol!! Em um certo momento, ela mencionou seu medo de avião, que a impedia de fazer as viagens desejadas. Fiz as vezes de macho gentil, dizendo que aquilo era compreensível, depois de uma certa idade todos passamos a ser mais cautelosos. No fundo pensei que era bobagem dela revelar algo tão íntimo como um medo. Saímos dali para minha casa e passamos a noite juntos novamente. Ela saiu cedo e dormi até tarde. Eu ainda não havia almoçado quando ela ligou. Logo pensei que poderia ter esquecido alguma coisa no meu apartamento, mas não, falou com voz melosa que adoraria me encontrar novamente. Marcamos encontro à noite, ela foi direto para meu apartamento e dormimos juntos. Na manhã seguinte, resolveu ficar na minha casa xeretando minha biblioteca. Acabamos lendo trechos de livros, e, como ela não fazia menção de ir embora, avisei que iria almoçar com amigos. Ela entendeu e partiu, não sem antes tomar a iniciativa de combinar mais um encontro para a mesma noite. Chegou a noite e não liguei: eu estava cansado, poxa! Ela desconsiderou, tomou a iniciativa e me ligou. Viria novamente até minha casa, já que eu estava cansado. Quando chegou, com sua mochila, a primeira coisa que pensei foi: essa mulher não dorme. Eu não tinha mais vinho em casa nem queria sair para buscar. Dormiu comigo e, no outro dia – era segunda-feira, saiu cedo para trabalhar, não sem antes tomar o café que ofereci, afinal, eu nunca deixo de ser gentil. No trabalho, a primeira notícia que recebi era a de que viajaria dali a dois dias. À noite a moça telefonou novamente. Foi quando perdi o encanto: eu sequer estava pensando nela. Choramingou que queria me ver logo, eu avisei que tinha uma viagem para quarta, e ela insistiu: veio até o meu apartamento para se despedir. Na terça voltou para despedir-se mais uma vez, ajudar-me com a mala e, quarta-feira, levou-me até o aeroporto, com direito a um "te cuida, amor". Quando entrei no avião, juro que pensei: só assim para ter um pouco de sossego. Em menos de uma semana, eu já me sentia sufocado e pensava em uma desculpa para me livrar da pegajosa. Imerso nesse pensamentos, percebi que entrávamos em uma zona de turbulência. Então, algo estranho aconteceu, alguma coisa que até hoje tento explicar para os amigos, mas nenhum leva a sério. A aeronave deve ter feito alguma manobra brusca, eu comecei a suar frio, a olhar para os lados e a rezar. Foram muitos Pai-Nossos e o dobro de Ave-Marias – as mulheres são mais sensíveis – até respirar aliviado em chão firme. O que havia acontecido comigo? Não tive dúvidas: acabara de adquirir medo de avião.

Créditos:
Machado de Assis, A Cartomante
(os demais ainda estão vivos )



Categoria: Ensaios Prosaicos
Escrito por Aida às 23h47
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Comemoremos...

Eu tenho dois bons motivos pra comemorar o dia de hoje:

- não morri carbonizada

- posso adquirir o meu próprio extintor de incêndio

No mais, continuamos como no tempo da Joana D´Arc: apagando incêndios, especialmente no sentido figurado. E não votarei em ninguém esse ano.

Ai, que coisa mais "mulherzinha" ficar se queixando do mundo...

http://www.suapesquisa.com/dia_internacional_da_mulher.htm

 



Categoria: Solteira sim, sexista nunca!
Escrito por Aida às 20h53
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