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Ensaios Prosaicos
TETO
Oi, pai, como tu tá?
Fiquei com saudades e resolvi te escrever.
Como tá tua casa nova? Olha só, eu perguntando isso depois de tanto tempo. Mas pergunto porque não sei, só imagino. Muito melhor que a nossa velha? Deve ser... Não tem cano furado, nem lâmpada queimada, nem chuveiro estragado, né? Nem reboco nas paredes pra fazer. Isso é uma pena, eu sei, porque tu gostavas de arrumar as coisas. A gente te ajudava, lembra? Bem, atrapalhava bastante também.
Tem parreira aí pra colher uvas? E pés de milho? Isso deve ter, especialmente as uvas. Até araçá deve ter aí. Goiaba e sabiá. Deve ter vinho também. E palheiro? Agora tu podes fumar!
Tua casa nova deve ser muito confortável. E os colchões daí, então? São como aqueles das propagandas, muito macios, disso eu tenho certeza. É verdade que as roupas de vocês estão sempre limpas? E sempre novas? Que bom, né? Assim tu não precisas sair para comprar.
Não tem cheiro de esgoto aí, né? Só perfume de flores, café recém-feito e polenta. Só cheiros bons, nenhum fedor. Isso é ótimo. Nenhum barulho irritante também. Maravilha! Nada de freadas de ônibus. Ah, e melhor que tudo isso: não precisas acordar cedo, nem dormir tarde. Aí deve ser mesmo o paraíso. Só não sei se esse tal de paraíso é tão bom assim, porque é aí que estão as pessoas queridas que demoraremos a ver novamente, e ficar com saudade é muito ruim.
Escrito por Aida às 23h04
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O ARTESÃO
Alessandra estava angustiada: vinte e quatro anos e nenhum ficante da sua longa lista havia se tornado namorado. Ninguém para apresentar aos pais, às tias e à madrinha. O que estava acontecendo? Nascera para ser encalhada? Estava tratando muito mal os homens? Ou muito bem? Resolveu abandonar a “catação de papel na ventania” nas festinhas noturnas da cidade e investir na internet. Chega de sair à noite no frio! Chega de não conseguir conversar direito por causa do som alto! Chega de fumaça e aperto! Chega de caras nada a ver! Chega de mal entendidos! Chega de tanto trabalho! Devia parar com a farra e mudar a tática. Na internet conheceria alguém mais verdadeiro, mais sincero, disposto a abrir sua alma, já que o físico só viria em um segundo momento. Conversaria muito com o cara antes de beijá-lo. Além disso, saberia de antemão se ele possuía boa cultura, se conseguia sustentar uma conversa descolada e se escrevia corretamente a palavra “exceção”. Localizou o alvo no orkut: admirador da Grécia e velejador. No perfil pessoal, apenas a resposta para “o que te excita”: “tempestades”. Enviou uma paquera virtual e logo foi correspondida. Iniciou-se aí a fase dos scraps. Logo após, veio a fase MSN. Durante as tecladas, Alessandra postava chavões do tipo: “Homem é tudo igual”, em parte para verificar a ortografia do moço, que acabou respondendo mais de uma vez: “Toda regra tem sua exceção”. Estavam indo bem, quando chegou o convite desejado: “Vamos sair hoje?”. Alessandra não titubeou: “Sim, claro!”. O moço do orkut sugeriu um encontro no parque, dizendo que poderiam tomar chimarrão, comer pipoca, passear de pedalinho no lago, talvez até andar de roda-gigante, tudo muito fofo e muito à vontade. Mas Alessandra lembrou que estava ventando: “Espaço aberto hoje não dá!”, contrapropondo um café no shopping. Arrumou-se toda, maquiou-se, fez chapinha e calçou um salto dez, como mandam os manuais do primeiro contato. Encontraram-se na livraria. “Perfeito”, pensou Alessandra ao ver o moço. Durante o papo, ainda descobriu que ele fazia pipas. “Bacana”, comentou, enquanto pensava: “Oh, além de lindo, ele é um artesão!”. Voltou para casa contente: “Agora rola!”. O inferno veio na semana seguinte: nenhum scrap no orkut, nenhum torpedo no celular, sumiço total! Depois de espernear sozinha com seus diabos, Alessandra resolveu tirar satisfações com o moço. Ligou e perguntou: “Por que você está tão gelado comigo? Sou feia? Nunca gostou de mim?”. O rapaz respondeu com a crueldade da clareza: “No nosso encontro, tu me pareceste fechada demais. Deu a impressão que foste criada em um claustro. Achei que, se eu tentasse te beijar, gritarias. Além do mais, tu detestas, mas eu adoro o vento!”.
Escrito por Aida às 22h18
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PO POEMA
Desde que você me deixou Com palavras amargas de fel Nunca mais eu te chamei De azeitona do meu pastel
Desde que você me deixou Naquela triste quinta-feira Eu vivo perdida e sem rumo Fazendo muita besteira
Desde que você me deixou Me chamando de incompetente Eu ando triste por aí Abandonada e carente
Desde que você me deixou Achando que sou uma falsa Estou numa maré de azar Só encontro mala sem alça
Desde que você me deixou Porque odeia arroz com feijão Cozinho tudo com pimenta Porque só falo palavrão
Desde que você me deixou Com saudades do teu sotaque Eu li todos os livros Da Rita Cadillac
Desde que você me deixou Me chamando de ciumenta Não compro mais roupa nova E saio de casa fedorenta
Desde que você me deixou Porque é careca e grisalho Eu quase morro de saudade Da tua língua e do teu beijo
Escrito por Aida às 20h17
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Pedro Bob
Iniciemos com o herói: Pedro Bob. O apelido foi dado por amigos do colégio, que julgavam “Pedro Roberto” afetado demais. Pedro Bob não completou o segundo grau porque começou a tocar violão. “Há bons músicos entre os Bobs”, cogitou quando decidiu pela carreira. Tentara antes o teatro, no qual se destacou interpretando mulheres feias. "Se destacou” é mera indulgência da autora, porque atuou três ou quatro vezes, só porque as meninas, todas candidatas a rainha do colégio, negavam-se a pagar esse mico. Pedro Bob não se importava. Dizia que fazia teatro por sarro e música por amor. Não era compositor, fazia cover de música cabeça: Bob Dylan, Bob Geldof, Roberto Carlos fase “Jesus Cristo eu estou aqui” e Frenéticas. Brincadeirinha, não tocava Frenéticas. Apaixonou-se pela música e pela Lira ao mesmo tempo. Lira: aqui já está na hora de introduzir nossa anti-heroína. Líder negativa, popular, carismática, jogadora de futebol. Vendia docinhos de Leite Moça no recreio, mas nem por isso era um doce. Dizem que não fumava maconha, apesar de mostrar-se aborrecida no início da manhã. Pedro Bob planejou uma exibição de seus dotes musicais na escola, imaginando conquistar a atenção de Lira, que ainda não o tinha visto no palco. “Vai ser solo”, avisou ao colega que se ofereceu para acompanhá-lo com a gaita de boca. Sua propaganda de corpo-a-corpo funcionou: no dia do show, a escola estava em peso no auditório. Tudo ia bem, até ouvir-se um muxoxo na platéia. Iniciou-se um burburinho e Bob ouviu Lira falar: “Toca Frenéticas!”. Os amigos mais abusados, puxados pelo tocador de gaita de boca, aderiram: “Põe uma roupa de mulher” “Te veste de mulher e manda ver Frenéticas”. Pedro Bob não gostou, especialmente porque um improviso era inviável naquele momento. Parou de tocar e berrou: “Vão se fu**”, ali, na frente de todos. Depois disso, ficou meio deprê e pensou em não mais voltar à escola. Durante essa folga, começou a ler um livro de auto-ajuda de sua mãe. Quando terminou, procurou outros, e, lá pelo quinto livro, havia absorvido o estilo. Gostou especialmente de uma frase: “Não acredite em tudo que os outros falam. Prefira jóias verdadeiras às palavras preciosas”. Passou a perceber que muitas das músicas ouvidas mais por acaso que por gosto pareciam com os conselhos dos livros. Até mesmo as das Frenéticas: “eu sei que eu sou bonita e gostosa... eu sou uma fera de pele macia...”. Ei, ele continuava espada, não seja malandrinho. Foi quando uma letra surgiu em sua cabeça. Uma letra de música de auto-ajuda. Bob copiou-a para o papel e tirou o som no violão. Logo surgiram muitas outras, e ele tornou-se compositor. Ficou rico e famoso, não voltou à escola e curou a dor de cotovelo. Um dia, sua obra foi homenageada em um episódio de Os Normais, quando certo personagem declarou estar compondo músicas de auto-ajuda para crescer na carreira. Moral da história? Até um chute na banda te empurra pra frente.
26/08/2004 (Escritora preguiçosa faz assim, republica. Essa historinha é homenagem aos meus amigos músicos.)
Escrito por Aida às 11h31
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Coisas que só acontecem quando...
Sim, meu caro leitor, a relação causa-efeito ainda não acabou. Muitas regras já se foram, mas outras persistem, heroicamente. Senão vejamos: basta eu ter feito uma happy hour e tragado um copo de cerveja para encontrar uma meia azul no elevador. Por que, morando há dez anos no mesmo lugar, não tinha encontrado antes? Ora, efeito da cerveja, nessa exata medida. Por que objetos ainda mais insólitos já encontrei, como vasos de flores esparramados, ou bilhetes de vizinhos furiosos, mas nunca antes uma meia? Quantas meias viajaram solitárias no outro elevador do prédio sem que eu as percebesse? Você já sabe.
Agora só me falta levantar os demais fatores intervenientes, além do copo de cerveja, para explicar a aparição da meia, uma vez que nem sempre que bebo um copo de cerveja isso ocorre.
Ufa!
Escrito por Aida às 21h23
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Hábitos de desconsumo
Para os caçadores de tendências
Impressora é uma coisa que não compro. Nenhuma presta, o cartucho é caro, e em qualquer esquina existe uma lan house para imprimir trabalhos. Relógio eu uso o do celular. Nem para dar aula é imprescindível: não é preciso olhar a hora para ver que a aula está acabando, basta observar a movimentação dos alunos em suas cadeiras, guardando seu material. Despertador eu uso o do celular, que também ocupo, enventualmente, para fazer e receber ligações. O carro, enquanto andar, não será levado para o mecânico, nem trocado por outro. Automóvel é a maior aberração da nossa época. Refrigerante, estou diminuindo. É caloria vazia. O dietético já não entra aqui: minha cunhada explicou que é ainda mais prejudicial à saúde. Pen drive é bom, já que disquetes viraram lixo informático. Mas vou esperar pra comprar quando passarem a produzir acoplada ao celular. Máquina digital, idem. Além do mais, os amigos que tem uma encarregam-se de registrar meus instantes. Remédio pra TPM larguei. Agora tomo leite de soja e sou feliz, não tenho mais vontade de matar ninguém. Bom, para ninguém dizer que estou ficando pobre, aviso que comprei uns livros budistas.
Escrito por Aida às 19h27
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Turbulência (ficção )
Não lembro quem chegou em quem, quando percebi, ela falava em italiano comigo. Dei risadas e pedi um vinho branco gelado para sair daquele constrangimento, porque não entendia patavina do idioma. Quando começaram as queixas em relação aos relacionamentos passados, pensei que perderia o encanto. Mas ela era muito atraente, levou-me para sua casa e a noite foi ótima. Liguei novamente dali a alguns dias. Estava ansioso, não sabia o que fazer com ela, acabamos indo a um restaurante. Eu queria olhá-la nos olhos e seduzi-la novamente, porque ainda não estava certo de que a primeira noite havia sido algo mais do que efeito do vinho. Apesar da minha curiosidade científica, que ordenava não beber para fazer um experimento de controle, esvaziamos mais duas garrafas de um vinho chileno muito bom do qual não lembro o nome. A mulher era interessante, tinha tiradas inteligentes e sabia soltar uma brincadeira quando eu começava a me tornar pernóstico. Em determinado momento, pensei que pouco importava se era efeito do álcool, a cena toda estava muito agradável: uma perfeição, uma amiga que topa ir comigo pra cama, gol!! Em um certo momento, ela mencionou seu medo de avião, que a impedia de fazer as viagens desejadas. Fiz as vezes de macho gentil, dizendo que aquilo era compreensível, depois de uma certa idade todos passamos a ser mais cautelosos. No fundo pensei que era bobagem dela revelar algo tão íntimo como um medo. Saímos dali para minha casa e passamos a noite juntos novamente. Ela saiu cedo e dormi até tarde. Eu ainda não havia almoçado quando ela ligou. Logo pensei que poderia ter esquecido alguma coisa no meu apartamento, mas não, falou com voz melosa que adoraria me encontrar novamente. Marcamos encontro à noite, ela foi direto para meu apartamento e dormimos juntos. Na manhã seguinte, resolveu ficar na minha casa xeretando minha biblioteca. Acabamos lendo trechos de livros, e, como ela não fazia menção de ir embora, avisei que iria almoçar com amigos. Ela entendeu e partiu, não sem antes tomar a iniciativa de combinar mais um encontro para a mesma noite. Chegou a noite e não liguei: eu estava cansado, poxa! Ela desconsiderou, tomou a iniciativa e me ligou. Viria novamente até minha casa, já que eu estava cansado. Quando chegou, com sua mochila, a primeira coisa que pensei foi: essa mulher não dorme. Eu não tinha mais vinho em casa nem queria sair para buscar. Dormiu comigo e, no outro dia – era segunda-feira, saiu cedo para trabalhar, não sem antes tomar o café que ofereci, afinal, eu nunca deixo de ser gentil. No trabalho, a primeira notícia que recebi era a de que viajaria dali a dois dias. À noite a moça telefonou novamente. Foi quando perdi o encanto: eu sequer estava pensando nela. Choramingou que queria me ver logo, eu avisei que tinha uma viagem para quarta, e ela insistiu: veio até o meu apartamento para se despedir. Na terça voltou para despedir-se mais uma vez, ajudar-me com a mala e, quarta-feira, levou-me até o aeroporto, com direito a um "te cuida, amor". Quando entrei no avião, juro que pensei: só assim para ter um pouco de sossego. Em menos de uma semana, eu já me sentia sufocado e pensava em uma desculpa para me livrar da pegajosa. Imerso nesse pensamentos, percebi que entrávamos em uma zona de turbulência. Então, algo estranho aconteceu, alguma coisa que até hoje tento explicar para os amigos, mas nenhum leva a sério. A aeronave deve ter feito alguma manobra brusca, eu comecei a suar frio, a olhar para os lados e a rezar. Foram muitos Pai-Nossos e o dobro de Ave-Marias – as mulheres são mais sensíveis – até respirar aliviado em chão firme. O que havia acontecido comigo? Não tive dúvidas: acabara de adquirir medo de avião.
Créditos: Machado de Assis, A Cartomante (os demais ainda estão vivos )
Escrito por Aida às 23h47
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