Ócio Fecundo

Fugindo da Tese


RIQUELME: O menino que tem um “RI” no nome

O bom presságio já veio ontem: vi um menino correndo (como na música...), pequeno, de camiseta vermelha, com o irmão mais velho e a mãe, em direção ao supermercado. Uma ceninha corriqueira que me comoveu, porque o pequeno parecia mesmo muito contente. Os dois faziam micagens e invejei a inocência daquela criança que com tão pouco se alegrava. Ganharia um brinquedo? Estaria se divertindo com a possibilidade de correr livremente? Ou por estar junto com a mãe e o irmão? Ou porque estava simplesmente brincando? A cena me fez lembrar aquela felicidade boba, que nem se sabe felicidade, que só é possível na infância, quando não temos noção das coisas – dos perigos e das maldades, quando habitamos o paraíso que inevitavelmente perdemos depois. Hoje soube que um menino de cinco anos, vestido de Homem-Aranha, salvou uma menina-bebê de um incêndio em Santa Catarina. Ele brincava de super-herói quando percebeu o incêndio e entrou na casa para resgatá-la. A história é toda feliz, a graça é dupla: sucesso e piada. Poderia ser uma mini-comédia romântica, tem um herói bem-sucedido e engraçado, mas é melhor, porque os personagens são mini e a história é real. Real? Talvez o herói nem saiba disso. Ou eu não saiba o que é o real. O herói é firme, corajoso e determinado como todo verdadeiro e adulto herói, mas sua arma é fantástica: sua arma é sua alma. Sua arma é uma fantasia de homem-bicho que revelou o heroísmo da sua alma. O instinto de preservação da vida revelou-se fé em si mesmo. O instinto revelou-se alma. Ambos existem, mas aparecem como fantásticos para quem já não brinca mais tanto e está longe desses dois continentes. A história revelou que precisamos de vitórias e dos super-poderes que estão guardados em nós. Quem dera fôssemos uma tropa de heróis assim! O herói é um bombeiro tresloucado, que desconhece as regras de segurança, porque sua segurança é desregrada. É travesso e irreverente, maroto e inocente. Tem imaginação muito “treinada” e força física apenas suficiente. “Veste a camiseta”. Veste a farda (que é quase uma fralda!) não só com orgulho, mas com toda a sua fé. Pouco racional isso, mas, dessa vez, a vitória foi possível através do irracional. Bem-sucedidos (são os que) espalham sucesso. Sortudos (são os que) espalham sorte. Onde este pequeno bem-aventurado aprendeu técnicas de resgate? Ele sabia o que estava fazendo. Não duvido da mão de Deus no episódio, mas acredito que milagres como os que Jesus fazia eram desse tipo, possíveis e humanos, afinal, ele mesmo era humano, apenas via as coisas de um jeito diferente e maluco. Ou via o sentido das coisas. Obrigada, menino-maluquinho, por ter me feito rir como uma criança! (Preciso ler “A Psicanálise dos Contos de Fadas”... ou a dos “Contos de Fraldas”...rss ... e todos esse livros recentes com crianças protagonistas... e não quero mais ler notícias de crianças vítimas de violências.) Leia a notícia e veja a carinha do meu mais novo herói: http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1§ion=Geral&newsID=a1673321.xml



Escrito por Aida às 21h52
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


A civilização do automóvel*

 

Hoje no Caderno Cultura da ZH falam sobre Freud e a difusão da psicanálise em Porto Alegre. Já sabia que Buenos Aires era um antro de psicanalistas, agora, Porto Alegre me surpreendeu. Não pode ser. Um cidade com um trânsito selvagem como essa não pode ter tanta gente analisada. Será que não?
Os motoristas de Porto Alegre comportam-se como primatas. Vai demorar um pouco para dirigirem civilizadamente, assim como foi difícil para nossos ancestrais começarem a andar logo depois de terem descido das copas das árvores. Imagino os primitivos trompaços, atropelos, tropeços e golpes acidentais de tacape. O mesmo está acontecendo agora, onde moro. Será que isso ocorre porque Porto Alegre é pouco civilizada? Aliás, é possível ser motorista e ser civilizado ao mesmo tempo?**
Tentarei explicar partindo da seguinte frase de Freud: "A civilização começou na primeira vez que uma pessoa com raiva usou uma palavra em vez de uma pedra".
O que acontece quando dirigimos? Não podemos usar a palavra. Apesar de haver uma profusão de sinais para os motoristas entenderem-se, falta alguma coisa. Inaugurou-se uma nova forma de interação, sem palavras. O ser condutor passou a ter uma natureza diferente da do ser humano. Alguma coisa nova começou quando, ao invés de usarmos pedras ou palavras nos momentos de raiva, usamos o automóvel. Nem tão nova, talvez, já que, conforme a propaganda do novo Celta, podemos usar o carro para jogar uma pedra no inimigo e ganhar a batalha. Aí está, nem tudo que é novo é mais civilizado ou melhor. Provavelmente regredimos.
Bem, quanto a mim, ainda prefiro as palavras. Nada como um bem pronunciado e nada letal "Então vá tomar no seu fiofó, seu FDP!". Infelizmente, não lembro da última vez que falei isso. Eu eufemizo. No máximo, uso um "Então vá para a festa sozinho, seu babaca". Sou uma neurótica da civilização.

* Peguei o título desse livro: GOUNET, Thomas. Fordismo e Toyotismo na Civilização do Automóvel.
** Dizem que na Finlândia isso é possível.



Escrito por Aida às 16h22
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 
Meu perfil


BRASIL, Sul, Mulher, de 36 a 45 anos



Histórico


Categorias
Todas as mensagens Egotista eu sou Solteira sim, sexista nunca! Ensaios Prosaicos Fugindo da Tese



Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 Meu blog antigo, o Sem Pauta
 Hálito de Virgem
 Astronauta Roger
 Das Trips Coração
 Solo Urbano
 Textículos do Nemo
 Nothing is Real
 O Projecto Sem Nome
 Blog PCC
 Jotabê (Fotolog)
 Trem Azul
 Delirium Tremens
 Taxitramas
 Maurício (multiply)
 Mondo Carecone
 Senhor Prendado
 Companhia das Índias
 Marky's Place